Desde criança eu sempre gostei muito de desenhar, colorir, escrever, criar, recortar, colar etc. Enfim, sempre tive afinidade com artes. Por isso que enlouqueci quando li pela primeira vez sobre Mario Paint numa antiga revista, a Videogame nº 21, de dezembro de 1992, para ser mais preciso.
Claro que eu não li exatamente nessa época, devo ter ganhado essa revista uns 5 anos depois dela ter chegado às bancas. O fato é que eu fiquei alucinado com aquela matéria. Dizia que era possível desenhar, colorir, montar animações, compor músicas e ainda tinha um minigame de matar moscas que parecia incrivelmente divertido. Eu queria muito aquele jogo. Muito mesmo! Mas, assim como tudo que eu via naquelas antigas e saudosas revistas, sabia que era inacessível para mim. Eu provavelmente ficaria só na vontade.
Foi no Natal de 1997 que ganhei um Super Nintendo e conheci o Hot Shots, um jornalzinho da Gradiente enviado a todos os inscritos, que respondessem uma daquelas cartas resposta que vinham no meio da papelada dos produtos Nintendo recém comprados. Havia nessa publicidade um espaço destinado às “promoções” dos consoles e cartuchos. E, para minha surpresa, o Mario Paint estava nesse catálogo.
Eu surtei. Passei a infernizar minha mãe até ela comprar aquele jogo, eu não ia desistir dele. No fim, ela comprou. Um dos meus milhares de sonhos dos anos 90 se realizou. Chegou pelos correios dias depois, mas por algum motivo não veio até minha casa, ficou retido na agência dos correios e meu irmão foi lá buscar. No outro dia, deixaram ele embalado num pacote de presente na sala. Ah, que alegria. Essa lembrança sempre me faz sorrir. A caixa era uma beleza, bem maior do que dos jogos normais que eu via nas locadoras. Vinha com o cartucho, o mouse, o mousepad, uma haste para limpar os roletes do mouse e um manual lindo, todo em português.
Era a felicidade dentro de uma caixa cheirando a isopor novinho. Lembro de passar o dia todo aprendendo as ferramentas, desenhando e criando. No começo me faltava um pouco de destreza com o mouse, afinal, o advento da informática ainda não havia chegado lá em casa. Como eu não tinha contato com computadores naquela época, nunca havia mexido em um mouse antes. Mas com o tempo fui ficando habilidoso. Fiz diversos desenhos, animações, estampas, compus músicas e joguei bastante o Gnat Attack, aquele minigame de matar moscas. Foi demais. Aproveitei muito. A música de fundo é bem agradável, nunca enjoei. Às vezes eu alterava o som ambiente, mas adorava a trilha principal.
Tempos depois, numa fase avançada de desapego da adolescência rebelde, lá no início dos anos 2000, troquei meu Super Nintendo por um Nintendo 64 com um gurizinho da minha rua. Com a autorização do pai dele, é claro, que adorou o negócio, pois ele havia comprado para o filho aquele console caro, em diversas parcelas, que sequer veio acompanhado de um jogo, que eram caríssimos, e custavam caro até mesmo para alugar. Sem falar que tinha somente um controle. O SNES que eu estava dando para ele tinha 30 cartuchos, uns originais, outros paralelos, mas repleto de jogos muito bons, dois controles, para que ele pudesse jogar com os amigos e primos. Foi uma negociação ganha-ganha, todos saíram satisfeitos. Eu tinha agora um Nintendo 64 e o meu amiguinho, que pouco se importava com a tecnologia, só com a diversão, com certeza aproveitou muito aquele SNES e suas dezenas de jogos. No entanto, eu não incluí o Mario Paint nessa troca. Não tive coragem de me desfazer dele. No fim das contas, fiz pior. Maldita fase de desapego. O troquei, completinho, uns meses depois, por um tênis para andar de skate… um Maha velho, imundo e chulerento. Ah se arrependimento matasse!
Foi por volta de 2008 que resolvi reaver meus consoles e jogos favoritos, a ideia não era exatamente colecionar, eu só queria tê-los por perto de novo. Sempre fui saudosista. Os videogames me trazem memórias incríveis, e eu amo esse sentimento de nostalgia. Não fazia (muitas) loucuras, meu orçamento sempre foi baixo, por isso muitos dos itens de tive na coleção eram comprados usados, e para consegui-los a um preço camarada, o estado de conservação às vezes podia não estar dos melhores.
Há alguns anos, numa passada de olho pela internet, encontrei um vendedor no Mercado Livre ofertando o jogo Mario Paint sem nenhum acessório, totalmente loose, e sem label. Estava barato. Comprei. Empolgado, fui logo atrás de alguém vendendo um Super NES Mouse avulso. Vocês sabem bem como é o Mercado Livre, a maioria dos vendedores vendem lixo a preço de ouro. Pra variar, tinha gente fazendo pedidas muito altas pelo mouse. Mas encontrei um vendedor anunciando um visivelmente velho, meio amarelado, e por um preço relativamente baixo. Porém (nesses casos sempre tem um porém) salientando que era “no estado”, que significa que não foi testado, mas para um bom entendedor, significa "não funciona". Dei uma barganhada básica, afinal, se não estivesse funcionando, seria um investimento muito arriscado. Ele foi compreensivo e deu uma baixada no valor para compensar o frete. Levei.
Eu já estava com o cartucho em mãos e sabia que ele estava OK, só faltava o mouse. Quando ele chegou, não perdi tempo, liguei o Super Nintendo na TV de tubo velha e… deu a lógica. O ponteiro não mexia e os botões não respondiam. Resumindo, não estava funcionando. Resolvi abrir para dar uma olhada. Se o problema fosse simples, como um fio solto, precisando de uma nova solda, eu poderia resolver. Ao abrir, não pude conter o sorriso, o problema era só o conector dos fios que estava fora do encaixe da placa. Só precisei plugar! E dali então passou a funcionar lindamente! Dei uma jogadinha rápida, fiz uma animação, compus uma musiquinha, matei umas moscas e salvei. O cartucho estava salvando perfeitamente. Mas uma coisa ainda me perturbava. Estava sem label.
Lembrei da Animes Zizou. Há alguns anos havia encomendado com eles labels para uns cartuchos de Master System, que eu tinha comprado no Mercado Livre em péssimo estado e ficaram como novos depois de uma restauração caprichada. Fiz contato e falei com o Thiago, gente finíssima, e encomendei uma réplica da label Mario Paint. Chegou uns dias depois. Era linda. Ficou perfeito. Como eu não pretendia revender, não ligava para o risco do cartucho perder valor de colecionismo. O importante para mim era que ao olhá-lo, estava exatamente como eu lembrava dele novinho.
Logo após a pandemia, devido a dificuldades financeiras e um pouco cansado do trabalho que dava, e dos riscos que envolviam colecionar eletrônicos, vendi meu Super Nintendo com todos os cartuchos, controles e acessórios, incluindo meu querido Mario Paint. Foi a segunda vez que me desfiz dele. O dinheirinho foi bom, me salvou numa hora difícil. Mal cheguei a jogá-lo nessa segunda passagem que ele teve na minha vida, mas ainda carrego lembranças maravilhosas da segunda metade dos anos 90, quando o tive pela primeira vez. Saudades.
Muito obrigado a todos que leram até aqui. Foi um grande prazer compartilhar uma das minhas memórias com vocês.
Até a próxima!

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